A aversão da esquerda à exactidão dos números

[dropcap size=”500%”]S[/dropcap]

e todos nos lembramos da célebre frase de António Guterres, quando questionado pelos jornalistas, e após largos segundos a hesitar e a gaguejar, vociferando uns números para o ar, do “é só fazer as contas”, essa expressão retrata bem o alheamento e a quase aversão da esquerda portuguesa à ciência exacta que é a matemática. Se também sentimos hoje na pele o alheamento de alguns pelos limites impostos pelo PEC (de Pacto de Estabilidade e Crescimento e não de Programa de Estabilidade e Crescimento, já que são coisas distintas), os 3% do PIB de limite ao défice e os 60% do PIB de limite à dívida pública, convém relembrar que este último foi ultrapassado pela primeira vez por António Guterres. Se este foi o responsável pelo pecado original, metáfora de Paulo Rangel, já José Sócrates foi responsável pelo pecado capital, expressão também de Rangel, com a total violação, aldrabice e consequente galopada dos números do défice e da dívida. É óbvio que os governos de direita também deram a sua ajudinha, mas em proporções muito menores. Daqui se conclui que a esquerda portuguesa não se dá muito bem com números.

Porém, quanto mais à esquerda pior a desconsideração e a confusão com os algarismos. Quanto pior o desplante. Por estes dias a eurodeputada Marisa Matias, eleita pelo Bloco de Esquerda, fez questão de chamar, de forma indirecta, burros e ignorantes aos portugueses, mentindo descaradamente acerca de números. Ou então, retratou o seu conhecimento sobre matérias europeias e sobre aquilo de que fala… E, se assim foi, fico preocupado, e muito, com a qualidade de quem nos representa em Bruxelas e Estrasburgo. Marisa Matias afirmou no passado dia 4, na edição da noite da Sic Notícias, que nenhum país europeu cumpre com o limite de 60% do PIB ao endividamento… Ora, pelo menos 12 país ficaram bem abaixo desse valor no ano de 2012… Disse ainda, a eurodeputada, que também nenhum país cumpria com o limite dos 3% ao défice… Ora, pelo menos 13 países cumpriram esse limite em 2012.

Seria bom Marisa Matias ter umas aulas no ISEG com o passado, futuro e eterno líder do Bloco de Esquerda, Franscisco Louça, um economista de referência no meio académico. Mas teriam de ser aulas em meio académico, onde Louça é bom com os números, porque no campo da política sofrerá também de alguma dislexia numérica, que como já vimos caracteriza os camaradas de Portugal.

João Santos

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *