40 anos depois Portugal é uma democracia

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uando oiço os mais alarmistas a anunciarem o fim do regime e fazerem depender a subsistência dos pilares de um Estado e da forma de governo de um país, da santificação dos governantes, acho exactamente o oposto! Porque o que esses alarmistas querem dizer é que os mais altos representantes do povo ou devem ser santos, ou podem ser pecadores vistos como santos, e isso são coisas completamente diferentes.

Tenho-me abstido de comentar o mais recente caso de José Sócrates, porque as reacções primárias a qualquer facto são sempre mais emotivas do que racionais, e só o tempo e o distanciamento nos dão a destreza de analisarmos os assuntos com olhos de ver, com frieza.

E é caso para dizer: finalmente! Não é finalmente o Sócrates ter sido detido e preso preventivamente, mas sim, finalmente, atingimos a maturidade da nossa 3ª República e somos finalmente uma Democracia, um Estado Democrático, com separação de poderes, onde todos são tratados em pé de igualdade perante a lei.

O que se passou nos últimos anos foi de uma hipocrisia gritante. Toda a gente sabia dos casos, as provas eram notórias, os factos não enganavam, mas a sociedade fechava os olhos. Em particular os nossos polícias, magistrados e procuradores que se consideraram subalternos desses “deuses” do poder político e económico e não ousaram tocar-lhe. O que não falta são escândalos nos últimos anos, em que as dúvidas que restam são meramente acessórias, o que não falta são indivíduos que têm escrito na testa os crimes que cometeram, mas que continuam impunes, e, por vezes, até recebem o título de “pai da democracia”. É o cúmulo!

Não é agora, que o regime começou a funcionar, que vamos anunciar o seu fim. Eu percebo que seja embaraçoso para muitos a justiça funcionar, mas a limpeza precisa de ser feita, a bem das novas gerações. E se nos últimos anos a anuência de todos permitiu que pessoas menos bem intencionadas ou com maior facilidade em serem tentadas ocupassem lugares de topo, não podemos confundir a árvore com a floresta. Podemos sim estar certos que esta nova performance da justiça e das instituições evitará que no futuro esses comportamentos se repitam e esse tipo de pessoas “sobreviva”. Agora é tempo de limpar Portugal.

João Santos

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